domingo, 1 de abril de 2018

uma vida iluminada. iluminada?


É possível uma pessoa depressiva ter uma vida iluminada?

Quando escolhi o nome deste blog eu o fiz por conta do filme – sim, o filme, eu não li o livro – com o Elijah Wood, de 2005. Um filme muito bonito e singelo, com umas pitadas de humor e excelente trilha sonora. Por causa dele um dos meus melhores amigos foi apelidado de Jonfen.

De qualquer forma, dias ensolarados não são os meus prediletos. Confesso que gosto de dias nublados e chuvosos. Frios e ensolarados são os piores para mim. Os que me deixam mais melancólica. Não sei o motivo, mas sei que sempre foi assim. Desde pequena. Ah, e odeio pôr do sol.
Atualmente trabalho à noite na biblioteca da faculdade para ganhar bolsa e o horário que entro é bem a hora do pôr do sol. As pessoas sempre comentam. Eu apenas concordo que sim, é bonito, mesmo. Eu sei que é bonito, mas não gosto. É um horário ruim para mim.

Enfim, além da depressão eu tenho um transtorno alimentar. E os médicos parecem ter mais pressa que eu em resolver isso. Acredito pelo fato de eu ter o transtorno errado. É, se você estiver à toa, um dia e resolver ter um transtorno alimentar (porque aparentemente é assim que acontece, tá), nunca escolha a compulsão. Compulsão é o pior de todos. Poxa, mas por quê?

Porque você tem mais chances de engordar. E engordar é a pior coisa do mundo atualmente, você sabe. Você vai ao psiquiatra e ele te oferece um medicamento blá que vai promover emagrecimento pois, nas palavras dele, “é melhor chorar num rolls royce (ou qualquer outro carro bacana foda-se) do que num ônibus”. Aí você, já exausta dessa conversa, pergunta: “quer dizer então que meu corpo é um ônibus?”.

Resumindo, você tava melhorando, você piora – não imagino o porquê. Aí você vai pra outro psiquiatra. Aí ele fica perguntando do seu IMC. Se você é pré-diabética. Se você já pensou em fazer bariátrica. E você tá mal. Você aguenta as perguntas. Pagou muito caro para estar ali. Você já frequenta psiquiatras há 16 fucking anos. Você já está pensando que, se morresse, não precisaria mais tomar remédio, se tratar, emagrecer, nada. Você estaria livre dessa peregrinação ingrata que já dura o tempo de uma vida.

Mas como sempre diz minha mãe, citando Jurassic Park: “A vida encontra um caminho”. E essa semana eu vou procurar um novo médico. Médica, na verdade. E pau no cu dos outros psiquiatras.

sábado, 17 de dezembro de 2016

lá e de volta outra vez

Como já havia comentado aqui, estou cursando Psicologia. E foi mais ou menos assim que aconteceu:

Nos idos de novembro do ano passado eu estava fazendo terapia com um psicólogo. Como sempre, mais uma tentativa de tratar meu transtorno alimentar. A terapia em si não deu muito certo, na verdade, nem um pouco certo. Mas em uma das sessões conversamos sobre formação acadêmica. Ele me contou de um sonho que ele tinha quando cursava Economia lá em Caracas (ele era venezuelano e trabalhava com hipnose “bem dormido, bem dormido...”) e que só parou quando ele decidiu trocar o curso e estudar Psicologia. Porque era disso que ele gostava, na verdade.

Eu me identifiquei pelo fato de não ser feliz no Direito. Eu realmente não sei por que optei por estudar o Direito. Eu sempre achei que era isso que eu queria. Aos 11 anos dizia que queria ser Promotora de Justiça – risos + sinal da cruz.
E talvez por estudar sempre em escola de classe média, achava que minhas opções eram Direito ou Medicina. Meus pais nunca me forçaram a escolher determinado curso, eu apenas não cogitei fazer outro.
E Direito foi aquela coisa, né. Como um relacionamento abusivo, eu acreditava que o curso ia mudar, uma hora ia chegar uma matéria que eu gostasse ou eu ia tomar gosto pela coisa ou que era assim mesmo, fazer o quê, não é possível ter tudo nesta vida.

Tudo era muito difícil e pesaroso. Meus pais diziam que, se eu me dedicasse, seria uma ótima advogada ou qualquer coisa que o valha. Mas eu não queria me dedicar e achava que era preguiça, falta de força de vontade. Terminar a faculdade (depois de 7 anos) foi um parto. Uma conquista, mas um parto. E claro que quando você termina a faculdade de Direito você é... nada, né. Aí tivemos a OAB. Reprovei. Fiz de novo até passar. Passei. Virei Professora Assistente num curso preparatório e pude ajudar alguns alunos que também passaram pela mesma dificuldade que eu.

Mas tudo sempre muito pesado, muito difícil, muito nervosismo envolvido nisso tudo. Mas eu fui dando um jeito. Eu fui dando conta.

Até que eu percebi que eu não precisava. Ao conversar com o Psicólogo, eu disse que me interessava, na verdade, por Psicologia e que ainda quando cursava Direito eu me interessei por esta área. Mas eu me considerava velha para recomeçar, até por serem áreas bem diferentes.

No entanto, ele disse que uma segunda graduação é bem diferente da primeira. Que temos mais maturidade e levamos de outro jeito. E eu fiquei pensando naquilo durante minha volta para casa e, chegando lá, conversei com meus pais. Falei que estava muito infeliz no Direito e que só de pensar em investir mais de mim nesta área já me deixava desanimada.

Então disseram para eu ver se tinha Psicologia na Universidade Municipal de São Caetano do Sul – USCS (já que se eu fosse estudar pra uma pública eu teria que tirar um ano só pra isso etc.). Entrei no site da USCS e as inscrições para o vestibular estavam abertas. Me inscrevi.

No dia 13 de dezembro de 2015, meu pai trouxe pastel da feira para almoçarmos e depois fomos ao campus ali perto de casa. Eu, ele e a cachorra. Fiz a prova, com tranquilidade mas também com certa expectativa.

No dia 15, recebi o e-mail com o resultado:

1° lugar? Rapaaaaz...
O curioso é que no vestibular para Direito, eu passei em último lugar, em 6ª chamada. A raspa do tacho.
Dessa vez, passei em primeiro e ainda acabei ganhando bolsa de 50% de desconto nas mensalidades do 1° semestre inteiro. Parece que o jogo virou, não é mesmo?

De último a primeiro lugar. E vou te dizer que, apesar dos trocentos trabalhos em grupo que temos que fazer todo santo semestre, estou gostando e meu desempenho é muito melhor do que no Direito. Tem esforço, é cansativo, mas tudo sempre permeado pela certeza de estar fazendo o curso que eu quero e gosto.

Ciente e grata pela oportunidade que estou tendo de recomeçar, espero que, por meio da minha nova profissão, possa ajudar àqueles que não a tiveram ao longo da vida.

terça-feira, 1 de março de 2016

Eu, gorda

Então eu voltei à faculdade este ano. Eventualmente escreverei sobre isso também. Mas aqui eu mando um abraço ao perfeccionismo e resolvo não ligar para a ordem dos fatores e simplesmente compartilho algo que há pelo menos 25 anos define a minha vida: meu peso.

O importante é parecer feliz nas fotos
Na verdade não meu peso exatamente, pois eu nem sei quanto estou pesando. Mas como a minha relação com a comida sempre esteve longe de ser harmoniosa.

O que a faculdade tem a ver com isso? Temos uma disciplina chamada "Autoconhecimento e Desenvolvimento Interpessoal" e, em determinada aula, o Professor pediu que escrevêssemos sobre nós ou sobre autoconhecimento, porém em versos. Eu não costumo escrever em versos, acredito que essa tenha sido minha primeira vez.

E o que saiu, foi isto:

Toma esse veneno,
Disse sua mãe enquanto lhe dava brigadeiro.
Nossa, que linda!
Não engordou depois de todos esses dias!

Todo dia um controle externo
Sobre o seu corpo era feito.
Não é bonito para uma moça comer mais que um rapaz.
Tem que ser pequena, delicada.

“Ela é grossa, é emburrada!”.
Sempre as melhores qualidades ressaltadas.
Não tinha sossego nas férias nem nas festinhas.
“Soube que você caiu de boca na comida”

Aos 11 anos sua primeira dieta.
Aos 13 anos começou academia.
“Vamos ver se dessa vez dá certo.”
Nunca dava.

Quando ficou doente e ficou internada
“Ao menos se eu fosse magra...” é o que pensava.

Temiam que ela fosse piada entre os outros.
Mas ela já o era dentro de casa.
O assunto da família, todos os dias do ano.
Seu peso viajava o Brasil.
Anunciavam que havia emagrecido
“Tá tão linda...”

Mas diziam que era com sua saúde que se preocupavam.
Que saúde é essa que quando está magra é bonita e não saudável?
Vai entender... ela nunca entendeu, apenas sofreu.
Hoje pedem desculpas, hoje admitem “não deu certo”.
Agora cabe a ela, mais uma vez sozinha, se encontrar.
Encontrar o amor próprio que nunca foi encorajado
No seio de sua família.

“Mas você é tão linda!”
Pode até ser verdade e ela pode até saber. Mas não é como se sente.
Todo dia a mesma luta, a mesma dúvida:
Será que um dia vai gostar de si como é?

Mas não foi por mal, vão dizer.
Nunca é.
E também não é por mal que hoje tudo isso pode ser expresso
Por meio deste verso.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

pensa que vai

Passa o dia prestando atenção nas coisas, vai que uma é interessante o suficiente e sirva de pretexto para puxar assunto.

Sabe que pra puxar assunto não precisa muito. Um "E aí, como vai?" é o suficiente.

Difícil é manter a conversa fluindo.

Quando percebe, parece um programa de pergunta e resposta. Um lado pergunta, o outro só responde.

Acho que os sintomas são bem claros, né.

Não há interesse. Desista.

Pensa nisso, desiste.

"Chega, cansei, não vou mais perder tempo."

Quando vê, tá lá novamente.

Mas como é teimoso!

sexta-feira, 6 de março de 2015

you are an idiot :)

Às vezes eu tenho a impressão de que, não importa o que eu faça, nunca conseguirei transpor a forte sensação de ser uma completa idiota.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

dinâmica de bruto

The strangest thing happened last friday.

Lembro-me de estar no trabalho, entediada, com o peso da TPM nas costas e nas pernas. Principalmente nas pernas. Eu estava a fim de ir pra casa e ficar deitada.

Mas minha prima estava na cidade e queria me ver. Onde que você tá? Láááá onde eu costumava morar. Na mesma rua. Que coincidência! Que preguiça!

E bom, eu também queria vê-la. E conhecer a filhinha dela e o marido. Afinal, foram quase 4 anos sem nos encontrarmos.

Assim, desencanei do cansaço e fui. Aquele caminho eu conhecia bem. Era o que eu costumava fazer até o começo deste ano. Fui sem grandes pretensões, sem imaginar que os Illuminatis tinham algo maior pra mim.

Cheguei lá e estavam minha prima e sua amiga fazendo docinhos para o aniversário da minha priminha que seria no dia seguinte.

Sentei, conversamos, reparei em como a menina (muito fofa, por sinal) fala bastante e tem uma dicção muito boa para uma criança de 2 anos. Fiquei impressionada.

Um pouco depois eu conheci o marido da minha prima, que acabou saindo em seguida para comprar algo. Gente, quantos detalhes? Estou parecendo o meu pai, que dá a volta ao mundo antes de entrar no assunto. Então eu vou resumir e ir ao que interessa.

Minha prima foi dar banho na filhinha e eu fiquei cuidando do cachorrinho da amiga dela – o Faísca, uma gracinha!

Depois resolvi lavar um pouco de louça que tinha na pia.

Nisso, toca o interfone:
"Alô."
"Marina?"
"Não, é a Ana. Quem é?"
"É o Maron."
"Ok."

Ele entra e eu me apresento como a prima da minha prima. Ela continuava no andar de cima cuidando da priminha e eu fiquei lá embaixo fazendo sala pra ele.

Depois de "Você é do sul?" "O pai dela é irmão da minha mãe" "Uso Spoladore porque é menos comum" "Eu também" "De onde é Maron?" "Do Líbano" "Já foi pro Líbano?" "Não, mas ouvi dizer que é bonito" e eu pensando que esse piá tem cara de quem mexe com internet, pode até ser que ele conheça meu irmão, resolvi perguntar "O que você faz?" "Ah, um monte de coisa, eu sou designer, mas gosto mesmo de escrever quadrinhos". Penso "Quadrinhos? Maron? Mas será? Não é possível... ele é muito novo..." "Mas você publica?" "Sim..." "Mas tem, na internet?" "Tem..." "Mas qual o nome?" "Dinâmica de Brut-" "VOCÊ É O BRUNO MARON??????" "Você conhece meu trabalho??" "Siimm!!! Não acredito!! Cara, eu adoro!! Já até mandei pros meus pais alguns e nossa, vou até te dar um abraço, agora!"

*Abraço*

"Eu já comentei no seu blog!" "Te sigo no twitter!" "Você conhece fulano? E aquele?"

Quantas perguntas pra fazer! "Por que Dinâmica de Bruto?" "Seu desenho é feio de propósito?" "Você escreve com um dicionário do seu lado?"

Então meu primo volta, cumprimenta o Maron e o leva para a casa vizinha.
Adulta que sou, disse: acho que vou embora.
Poxa, queria tanto falar mais com ele...
Fico bolada. “Oi, uma fã aqui?”
Resolvi ir atrás deles e forçar a minha presença na cozinha, junto aos rapazes. E ficamos lá conversando sobre filmes e séries e outras coisas.

O tempo passa e vamos embora depois das 22h. Minha prima se preocupa com a hora, mas digo que é tranquilo, não tem problema, não precisa pagar táxi nem nada, rapidinho eu chego em casa.

Maron também se despede e resolve pegar ônibus no mesmo lugar que eu.

Ainda chegando no ponto, um ônibus se aproxima e ele vai acompanhando para ler a plaquinha com indicação das ruas. O motorista abre a porta e ele pergunta: "Passa na Rua Alfonso Bovero?" Motorista diz que sim. Maron vira pra mim e acena com sua mão metade coberta pela blusa dele "Ana, vou nesse aqui, falou!"

Cho-ran-do!

"Falou".

Dane-se a Rua Alfonso Bovero. Desenho dele nem é tão bom assim.



sábado, 30 de agosto de 2014

etc.

Alexey Shalaev (1966 - )
Não sei se é o momento de voltar a escrever. Nunca sei se é o momento. A vontade sempre permaneceu, mas por algum motivo, sempre fui adiando.

Não tá certo, mas também não quero ficar me cobrando por isso. Sei que sumi há muito tempo.

Neste último ano, o que teve? Um namoro, um término... muitos quilos.

É... acho que é um bom momento para recomeçar.

terça-feira, 14 de maio de 2013

sobre ela etc.

Ela resolveu descansar num banco de madeira no parque.

Senta. Mas está cansada. Então deita. Fica olhando para o céu. Acha bom. Fica relaxada. Parece séria e pensativa. No que estaria pensando? Não parecia feliz. Estava séria demais para uma pessoa alegre.

Talvez estivesse deprimida, angustiada com alguma coisa. Parecia ausente, com o pensamento longe. Aquela cara de “O que estou fazendo com a minha vida?” Mas também poderia estar triste por algo que realmente tinha acontecido.

Revive lembranças. Pondera possibilidades. Nenhum sorriso lhe vem ao rosto, como costuma vir quando nos lembramos de algo bom ou engraçado. Não, ela não visitava boas lembranças.

É possível que mal conseguisse elaborar um pensamento concreto. A mente parecia sem graça, como se não pudesse entretê-la naquele momento a sós dela com ela mesma.

Estava sozinha. Será que era sozinha? Ela estava solitária porque optou ou porque não tinha a quem chamar para um passeio?

Ela não tem cara de muitos amigos... ou poucos. Olhando, não dá pra saber. Mas sei que só alguns se aproximam dela e ela gosta muito de todos eles. Têm cadeira cativa em seu coração. Mas então, por que sozinha? Até o celular deixou em casa. Estava evitando a companhia dos outros ou sabia que quando chegasse em casa não teria registro de nenhuma mensagem ou chamadas perdidas?

Inclusive, quem mais interage com ela pelo celular é o despertador, lembrando-a que, no mínimo, ele é a razão pela qual ela se levanta todas as manhãs...

Mas então... e ela? Fiquei intrigado observando-a por um bom tempo. Então me aproximei, ela me deu espaço para sentar e deitou novamente, descansando a cabeça no meu colo. Permaneceu com os olhos fechados.

-Aqui, você deixou seu celular em casa.
-É, eu sei... não queria carregar nada. Guarda aí no seu bolso. Alguém ligou?
-Só eu, antes de ver seu recado avisando que tinha vindo pra cá.
-Que bom que veio me encontrar.
-Tá tudo bem com você? Você me parece meio abatida.
-Você ficou me observando por um tempo antes de vir aqui, né?
-É, você me conhece... Mas tá tudo bem?
-Sim, só estou com sono – respondeu, sorrindo, com os olhos ainda fechados.

Sorri de volta e comecei a fazer cafuné nela... e então já não estava mais tão séria.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

a caminho de diadema

Dias atrás fui ajudar uma amiga a mudar-se para a casa de outra amiga nossa, uma que mora em Diadema, cidade vizinha de São Paulo, e aí reside todo meu conhecimento sobre a cidade.

Não que a mudança dela fosse enorme, até porque, como veio à procura de emprego, trouxe apenas duas malas não muito grandes - porém pesadas, é verdade.

Fomos, então, para Diadema. No último percurso do trajeto, pegamos um ônibus. Estava um pouco cheio e abafado. Eu coloquei as duas malas no chão, encostadas ao máximo perto dos assentos para evitar o bloqueio do corredor. Ambas ficamos em pé, ela mais pra lá, eu pra cá, batendo minha bolsa na cara da colega sentada que logo se ofereceu para segurá-la para mim, obrigada.

O ônibus foi ficando cada vez mais lotado mas, chegando a outro terminal, muitos saíram e um lugar ficou vago ao lado de um senhor, que me convidou para sentar ali, já que eu estava carregada.

Caía o mundo em chuva, mal dava para se ver lá fora.

Como quase toda conversa com estranhos, essa iniciou-se com o senhor comentando sobre a chuva e eu sobre o fato de, "ainda por cima", estar carregando as malas.

Ele foi falando o trajeto inteiro e eu nem me importei, afinal, com a nossa diferença de idade, ele tinha muito mais história para contar do que eu.

Logo fiquei interessada na conversa porque, depois de discorrer um pouco sobre como ele não suportava a cidade de Diadema que, segundo ele, tinha muita baianada e que ele já havia morado lá e que agora apenas visitava sua cunhada, esse simpático senhor preconceituoso me contou que era um bibliotecário aposentado. Disse que trabalhou por muitos anos na Biblioteca Mário de Andrade. Falou sobre seu amor pelos livros, sobre como conhecia todos os cantos de lá, especificou os gêneros que ocupavam cada andar (pelo menos não pediu que eu decorasse, pois esqueci logo em seguida), criticou uma antiga coordenadora que mandou passar pano úmido nos livros e guardar novamente, estragando diversos deles. Falou de como hoje a Biblioteca está bonita, e de como hoje o pessoal novo que trabalha lá não sabe onde ficam as coisas, tudo tem que "jogar na tela", assim é fácil, quero ver saber de cor e conduzir a pessoa até o setor correto.

Falei que ainda não conhecia essa biblioteca e que quero muito conhecê-la. Ele disse que, inclusive, as salas de estudo são muito boas. Romântica que sou, pensei que a conversa ia girar em torno disso, a paixão pelos livros, a nostalgia. Mas era um trajeto longo e a conversa foi desenrolando, mesmo que, praticamente, de forma unilateral. Eu apenas ouvia.

Depois dos livros, falou sobre a vida de aposentado, sobre como gastava seu tempo, sobre viagens, o que gostava de fazer e, principalmente, cantar. Gravou um CD com a filha, com a neta, um CD bem gravado. Ele vendeu mil cópias e agora dá de presente pra todo mundo e que, se tivesse um ali, me daria um de presente.

Ele falou da filha, da neta e do genro, 30 anos mais velho que a filha, "feio, acabado, mas ela gosta dele, é um ótimo marido pra minha filha... não tenho do que reclamar." Quando perguntei pela esposa, ele disse que já era separado. E que depois dela já havia namorado muitas, mas que as mulheres de hoje não querem nada com nada. "Só querem motel, ir a restaurante, viajar... pede pra lavar uma meia, pra você ver! 'Meia eu já lavava as do meu marido' elas dizem!" Não tem mulher que preste. A neta fez um perfil online para ele, um senhor de 82 anos, encontrar alguém para namorar. Uma de 18 anos mostrou interesse e tá louco, viu, mulherada tá impossível.

Finalmente, nós dois em pé, já no terminal, minha amiga me esperando, e eu esperando que ele terminasse a história de um cara que "Pimba!" engravidava todo mundo e até agora não sei quem é esse cara e como ele foi parar na conversa. Por último, pediu que eu anotasse o telefone dele porque ele fazia questão de me levar um CD de presente.

Acho que esse senhor não conversava com alguém há muito tempo. Ele ainda contou uma porção de coisas das quais não lembro a sequência ou os detalhes.

A conversa não foi exatamente como eu esperava, mas foi interessante. No fim, nos apresentamos, Seu Juarez, só Juarez. "E sua graça?" "Ana", respondi. E ali nos despedimos.

E até agora não sei onde deixei o papel com o telefone dele.




terça-feira, 20 de novembro de 2012

das coisas que fazemos por capricho

Quando eu tinha 15 anos, meu professor de Filosofia falou sobre a diferença entre fazermos a primeira coisa que nos vem à cabeça, fazer aquilo que queremos e fazer as coisas simplesmente por capricho.

Para exemplificar as duas primeiras hipóteses, ele citou os personagens Vronski e Liêvin do romance Ana Karenina (meu romance predileto até agora, que li justamente pela indicação desse professor). Segundo ele, Vronski fez o que lhe veio à cabeça, enquanto Liêvin, por outro lado, fez o que queria, mas apenas quando foi possível. 

Li o livro e não passei perto de fazer esta análise -mesmo a leitura tendo sido posterior à aula. Até que, escrevendo sobre isso, agora, vejo que faz sentido. Mas nem foi nisso que fiquei pensando durante todos esses anos (nem tantos assim). Antes, fiquei pensando, diversas vezes, sobre as coisas que fazemos por capricho.

Segundo a explicação dele, são coisas que fazemos apenas por fazer. É como chutar uma lata ou uma pedra que encontramos na rua e ir chutando até que elas tenham saído da nossa frente. Bater um graveto nas grades ou no portão de alguma casa. Arrancar uma folha ao passar por uma planta. Esvaziar uma bexiga fazendo barulho. Estourar um balão. Pular para tentar alcançar o teto com a mão.

Isso quando não envolve interação com os outros, como a piada do pavê, que muitas vezes é mais forte que o indivíduo e, antes que ele tenha pensado sobre o assunto, já fez o comentário sobre ver e comer o doce. E isso que faz anos e anos que não como pavê. Mas a piada estará sempre lá e imagino que perpetuará durante muitas gerações.

Também quando duas pessoas estão conversando e passa uma terceira dizendo "É tudo mentira o que ela tá falando, não acredita nela, não, é tudo mentira." Já presenciei essa cena constrangedora inúmeras vezes. Gosto de pensar que é por capricho, porque sei que, uma vez que a pessoa falou isso, já se arrependeu em seguida, porque é muita vergonha alheia. Ninguém quer fazer esse tipo de comentário.

Ou quando meu primo cuspiu num doce que minha prima estava preparando. Aquilo foi puro capricho, não tinha razão nenhuma para ele fazer aquilo. E claro que o doce foi servido mesmo assim.

Outro capricho recorrente era quando, na época de internet discada, a conexão de alguém caía e, quando voltava para o chat, o outro perguntava "Machucou?" Foi cute até certo ponto, depois acabou ficando repetitivo e, felizmente, hoje em dia a internet nem cai tanto assim e, quando cai, ninguém mais faz essa pergunta - eu imagino.

Acho que este texto eu escrevi por capricho. Ou talvez porque eu quis. Porque se fosse a primeira coisa que tivesse me vindo à mente, ele teria, no mínimo, 11 anos.

Então fica aí a reflexão de que às vezes fazemos o que queremos, às vezes fazemos a primeira coisa que nos vem à cabeça e, em grande parte dos casos, fazemos coisas por capricho.

A menos que eu não tenha entendido nada do que o professor estava tentando ensinar. Mas isso não é mais problema meu, afinal, já passei nessa matéria.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

diana - parte III

Diana deixou a casa de Rogéria e foi para a escola. Ainda sorria lembrando a conversa que ocorrera durante o almoço. Rogéria, mais uma vez, reclamava do nome que seus pais tinham lhe dado. Em sua defesa, sua mãe argumentou que, por ela, o nome seria Rodriga, o que fez Rogéria dizer:
"Ah tá, por que não falam logo que queriam um menino?"
"Mas também pensei em Priscila..."
"...a Rainha do Deserto."
E assim foi durante todo o almoço. Não que Rogéria odiasse seu nome, já estava acostumada com ele, mas não perdia a oportunidade de provocar sua mãe com esse assunto, apenas por achar engraçado.

Chegando no colégio, Diana encontrou seu colega Tiago e também o Bruno, que participavam da atividade extra com ela.
"E aí, a Cleide já chegou?" Foi logo perguntando.
"Já, ela está lá na copa, como sempre.", respondeu Tiago.
"Sempre..."
Diana colocou suas coisas no armário e logo começou a trabalhar.
Nisso entra Cleide e "Ah, finalmente a mocinha chegou!"
"Estou no horário, Cleide."
"E é bom, mesmo!"
Nisso os três trocaram olhares de impaciência - aquele virar de olhos com sinal de desaprovação. Eles faziam isso quase o tempo todo, já que Cleide tinha opinião para tudo. Mais um pouco e ficariam todos vesgos.
Depois de tecer o comentário impertinente, Cleide sentou-se em sua mesa e, depois de catar milho no teclado do computador - porque é assim que ela digitava -, começou a jogar paciência ou a fazer qualquer outra coisa que nada tinha a ver com o trabalho da secretaria.
Um pouco depois, entra um aluno:
"Oi, eu vim trazer um documento que faltava para minha tranSferênCia."
"Seu nome completo...?", perguntou Diana, ignorando o jeito engraçado de o menino falar.
"É Gilberto CoSta Lima."
"Transferiu de onde?"
"Colégio Bom JesuS, lá de Belo Horizonte."
"Ah, então você é mineiro."
"ISSo, Sou de MinaS."
"E por que você fala desse jeito?"
"DeSSe jeito como?"
"Assim... MinaS... dando ênfase nos ésses..."
"Mineiro fala aSSim, oraS!"
"Eu já fui para lá e não vi ninguém falando assim..."
"É, mas eleS falam..."
"Não falam, não."
"Falam, sim!"
"Não, não falam."
"Falam!"
Nisso Cleide intervêm: "Parem com essa discussão idiota e anexa logo o documento do menino na ficha e termina logo com isso!"
Diana, sem perder o contato visual com Gilberto, disse:
"Cleide, parece que acabaram de passar um café lá na copa..."
"É? Bom, vou lá ver. E vocês continuem trabalhando! Menos conversa, mais trabalho!"
Uma vez que Cleide saiu da sala, Diana continuou:
"Não falam."
"Olha, eu morava lá e Sei melhor que voCê. Já morei em muitoS lugareS do Brasil, também, e Sou muito bom em reconhecer SotaqueS."
"De verdade?"
"Sim. Você, por exemplo, é do Nordeste."
Todos riram, evidentemente.
Diana apenas disse: Gilberto, acho melhor você ir ao banheiro."
"Por quê?"
"É uma dica, apenas vá."
Gilberto achou melhor seguir a dica, em todo caso. No momento em que saía, entrou outro menino:
"Gilberto, onde você tá-"
"Não posso falar agora, tou com pressa!"
"Que que deu nele?"
"Não sei, acho que ele precisava ir ao banheiro. Você conhece ele?"
"Sim, ele é um primo meu de 2° grau. A propósito, meu nome é Lucas."
"O meu é Diana... esse seu primo é bem esquisito, não?"
"Bom... ele tem dezesseis anos e está na quarta série. Acho que isso é ser esquisito o bastante."
"Nossa! Ele é retardad...tário?"
"Então, ele tem problemas, sabe... mas os pais não admitem e ficam esperando que ele de alguma forma mude, de uma hora pra outra... eles também são estranhos..."
Gilberto voltou do banheiro, aliviado.
"E então, Berto, vamos?"
"Sim, sim... tá tudo certo com a minha transferência, Daiane?"
"É Diana... sim, está. Pode ir."
"Nos vemos por aí, então?" - disse Lucas.
"Sim, claro... té mais."

"É, no fim nem tinha café lá. Tive que esperar a moça fazer... aproveitei pra lanchar, mas nem comi muito, porque estou de dieta" comentou Cleide ao voltar da copa. Ela vivia dizendo estar de dieta e dando satisfação sobre o que comeu ou deixou de comer. Como sempre, ninguém se importava.

Findo o expediente, Diana foi pra casa. Fez o de sempre, tomou banho, comeu, não estudou, ficou na internet um pouco e foi pintar as unhas enquanto via um seriado. Não prestou muita atenção na história porque estava distraída com seus pensamentos, rindo sozinha dos acontecimentos daquele dia. Balançava ligeiramente a cabeça para os lados como que desacreditando na existência de pessoas como o Gilberto ou a Cleide. Por outro lado, achou o Lucas um cara legal, mas como não o conhecia bem, criou uma leve expectativa sobre o quê exatamente esperar de uma amizade com ele.

Enquanto se preparava pra dormir, pensou um pouco no menino de quem gostava e, sem perceber, foi a última vez que pensou nele dessa forma. Então dormiu.




quarta-feira, 13 de junho de 2012

diana - parte II

"DIAAANA!!"
"Ai, não precisa gritar, eu tou aqui do lado."
"Ah, desculpa! Pensei que você ia demorar mais..."
"É, eu também, mas... vamos embora."
"Mas e daí, sobre o que vocês falaram?"
"Nem falamos muito, ele estava ocupado com qualquer coisa."
"Clássico."
"É, mas eu já devia ter previsto... olha lá, o ônibus chegando."

Como as duas tinham saído um pouco mais tarde do horário de término das aulas, deram sorte de pegar um ônibus quase vazio.

"Vamos sentar aqui, gosto de sentar no alto" disse Diana.
"É, eu também, melhor lugar, né... pobre tem até lugar preferido no ônibus!"
"É aquela coisa, né. Ponto alto do dia é não perder o ônibus, ele não estar lotado e ainda conseguir sentar no banco preferido e, se possível, na janela."
"Bem isso. No mínimo um desses três, né. Porque tem dia que eu não perco o ônibus, mas também está tão lotado que eu quase fico sem roupa quando chego no fundo. Não tem carência quando se anda de ônibus!"
"Sim, isso é. Sem contar os catraca-lovers, né. Nossa, eles aglomeram muito no meio e no fundo sempre fica espaçoso..."

E continuaram nesse assunto por mais um tempo, até que Rogéria perguntou à Diana sobre como estava o trabalho temporário na secretaria do colégio.

"Então, tá tranquilo. Estamos conseguindo arrumar os arquivos, digitalizar tudo etc. É bem trabalhoso, mas pelo menos ganhamos uns pontos extras... ah, e o lanche também, né."
"Mas e a Cleide tava lá?"
"Nem me fale, ela tá lá todos os dias. Não aguento mais. Ela não sabe mexer no scanner, não sabe mexer em nada e só fica dando opinião, só enrolando, sabe? Nem sei como ela conseguiu o emprego lá. Aposto que foi apadrinhada por alguém."
"Sem contar que quando vamos lá na secretaria, ela nunca sabe responder nossas dúvidas. Sempre manda um 'não sei' e é super grossa."
"Total... com a gente ela tenta ser mais carinhosa, mas dá pra ver que é forçado. O pior nem é isso, é ela ficar dando lição de moral, como se ela fosse uma pessoa exemplar. A gente conversa, lá, com os outros alunos, batemos altos papos e ela só fica escutando. Aí, do nada, ela vira: 'Olha, mas eu vou falar uma coisa pra vocês...' e sempre fala algo nada a ver, fora de contexto. Aí a gente para de falar e depois que ela termina de nos ensinar como se deve viver, voltamos ao assunto normal, como se ela não tivesse falado nada."

Rogéria, ao imaginar a cena, começou a ter uma crise de riso e todo mundo no ônibus começou a olhar pra ela. Mas Diana já estava acostumada com a risada escandalosa da amiga e ela mesma desandou a rir da risada também.

"Não, e o pior é que ela nem é exemplo em nada. Se você for ver, a vida pessoal dela é uma bagunça, então ela vem com essas frases de efeito, senso comum, pra parecer sei lá, madura, centrada, talvez. Sendo que a gente é super sossegado, só fala de assuntos amenos. Aí ela faz umas ligações absurdas, fica falando de filhos de vizinhos que a gente nem conhece, nunca vimos mais gordos. Dá vontade de falar 'Meu, ninguém quer saber!!' Sem contar aquelas frases do tipo 'Não, porque, a partir do momento que a pessoa...' Ela sempre começa as frases com 'Não' ou 'Tudo bem, mas...' Ela discorda de tudo, mesmo que involuntariamente. Olha, bizarro."

Nisso as duas começaram a rir novamente e já foram levantando já que estavam chegando no ponto e, logo depois de puxarem a cordinha, o motorista deu aquela freada brusca, as duas tiveram que se segurar forte para não cair e pronto, começaram a rir tudo de novo.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

a guria que caiu em câmera lenta

Opa!
Essa história não tem segredo algum. Aconteceu como no título deste post. A guria simplesmente caiu vagarosamente, pausando.

Essa história aconteceu em 1997, quando eu tinha 11 anos. Eu estava na quinta série e meu irmão (do meio) na sétima. Frequentávamos o mesmo colégio lá de Curitiba e voltávamos juntos pra casa. Às vezes era uma aventura passar pelo portão do colégio com aquela enxurrada de gente só esperando uma brecha para todos se espremerem ao mesmo tempo e tentar, contra as leis da física, ocuparem todos o mesmo lugar no mesmo momento de desespero para ir pra casa. Lembro-me bem de um dia em que meu irmão estava à minha frente e, antes que a porteira abrisse, ele disse algo como "Ana, se segura em mim!" porque o negócio ia ficar feio!

Mas essa história não aconteceu nessa hora. Não, ela foi mais inusitada. Foi no caminho de volta pra casa. Eram apenas umas 4 quadras (e eu tive que olhar no Google Maps, já que minha memória acusava 10 quadras) e, no percurso, havia uma descida, que não era muito íngreme, pelo que me recordo.

Nesse dia, enquanto eu andava do lado do meu irmão, como sempre - até porque, se voltávamos juntos pra casa, não fazia sentido um andar na frente do outro - uma menina passou por nós e, de repente, como quem não queria nada, começou a cair. Ela foi diminuindo o passo, agachando aos poucos, ajoelhou, inclinou-se mais para frente, caiu até virar uma bolinha, deixando o toque final para a mochila que, em suas costas, deslizou por sobre a sua cabeça até "puff!" encostar no chão.

Achamos estranho, seguramos o riso e nos aproximamos para ver se ela havia se machucado e perguntamos se ela estava bem, ao que ela respondeu que sim e então continuamos nossa viagem. Rindo muito, claro. E eu já contei essa história em várias ocasiões diferentes, geralmente quando eu estava bêbada de sono, fazendo a encenação da queda. Posso não me lembrar de muita coisa nessa vida (o que vocês sabem que é mentira), mas este, realmente, foi um episódio memorável!

sábado, 5 de maio de 2012

watchamovie 4: Red Cliff I & II


Red Cliff, filme lançado em duas partes (Chi bi [2008] e Chi bi xia: Jue zhan tian xia [2009]), é baseado na obra The Three Kingdoms, de Guanzhong Luo e dirigido por John Woo (sim, o mesmo cara que dirigiu Face/Off).


O filme retrata uma guerra que aconteceu durante a Dinastia Han e se passa no ano de 208 d.C., quando o Primeiro Ministro do Império, Cao Cao, é nomeado Comandante do Exército Imperial e marcha para o Sul para guerrear contra os supostos insurgentes Liu Bei e Sun Quan.


O que eu gostei no filme - e gosto nos filmes orientais em geral - é que eles não têm pressa para contar a história. Eles têm cenas contemplativas intercaladas com cenas de luta e muita ação. E sequências de lutas podendo durar mais de 10 minutos. Sem contar determinados personagens que são destaque nas lutas, como Guan Yu nesta cena:


shit just got real
Ele não é o único que se destaca no campo de batalha. Logo no começo do filme tem uma cena em que um soldado luta contra vários outros com um bebê amarrado nas costas.


Destaque também para Takeshi Kaneshiro como o estrategista do exército de Liu Bei que parte em busca de aliados para combater o exército do tirano Cao Cao. O personagem também utiliza técnicas de feng-shui para prever as condições climáticas que podem ser utilizadas a seu favor nas batalhas. 


Takeshi Kaneshiro como Zhuge Liang
Ponto fraco do filme é a atriz que interpreta a esposa de Zhou Yu que, apesar de ter um papel importante na história, deixou a desejar na atuação.


Inevitável também associar o filme à Batalha de Helm's Deep que acontece no Senhor dos Anéis, o que não diminui a originalidade e criatividade do filme.


Numa época em que não existiam armas de fogo, as estratégias de guerra ganham um grande espaço na história, além das lutas corporais. Não por parte dos soldados - esses morrem aos montes. Mas os próprios oficiais entram na batalha e se destacam nas lutas. Se não é muito realista, eu não me importo. Afinal, é um filme. Por tudo isso, parem o que estão fazendo e assistam a este épico chinês.

sábado, 21 de abril de 2012

mudanças - parte final

Eu estava passando as férias de fim de ano na casa dos meus tios, em São Paulo, quando minha mãe ligou contando que a transferência que meu pai solicitara havia sido aprovada. Ele tinha que escolher entre as cidades de Jundiaí ou Santo André. Todo mundo escolheu Jundiaí, foi unânime, com exceção do meu pai que escolheu Santo André.

De início eu não gostei da ideia, já que morar em cidade grudada com outra nunca foi meu estilo. Sempre preferi cidades que têm começo e fim, com limites bem definidos. Esse negócio de olhar para a janela e falar "Ali já é São Bernardo." Ali onde? "Aqui já é São Caetano." Como assim, "Já é?" Cadê o intervalo nessa coisa? Cadê a estrada?

Sem considerar o fato de que, como eu disse, Cuiabá possuía uma identidade própria, ao contrário de Santo André que, em meu entender, ficava perdido no "Grande ABC" e que, segundo meu amigo, sua melhor qualidade era a de ficar próxima a São Paulo. Achei tudo isso um pouco frustrante (mas o fato de ficar perto de São Paulo realmente me deixou mais animada, não vou negar).

Mais uma vez tudo aconteceu de forma célere e logo estávamos envoltos no caos da mudança. Eu havia planejado tudo: primeiro encaixotamos tudo, o pessoal da mudança leva para o depósito, realizamos os reparos e a pintura no apartamento, colocamos à venda e nos mudamos. Aí os pintores vieram, os caixotes chegaram, e a bagunça tomou conta. Como disse, caos.

Eu pensei que a transição seria um pouco mais tranquila, mas acabei vindo junto com meu pai - o que me fez arrumar tudo às pressas e não conseguir despedir-me de todo mundo - para ajudar a escolher um apartamento. Não vou contar detalhadamente como foi por acaso que eu encontrei, depois de duas semanas, uma imobiliária que tinha o apartamento em que atualmente residimos e como se deu toda a correria de conseguir a papelada, até porque é muito chato. Ah, deixo apenas uma dica para você que é corretor: ficar falando para o cliente "A pressa é de vocês..." é extremamente desagradável e faz-nos sentir como se não estivéssemos indo atrás daquilo que queremos. É ficada a dica.

Então aqui termina a série de como eu vim parar em Santo André e nessa parte eu digo que estou gostando, principalmente do clima de temperatura amena e agradável - além da proximidade do meu irmão mais velho, alguns familiares e queridos amigos, claro.

Creio que este ano ocorrerão algumas mudanças pessoais e espero que essa pacata cidade, com caminhões de gás com musiquinha e poucos prédios à vista, seja mais querida comigo do que qualquer outra cidade tenha sido. E que os cães da vizinhança encontrem a paz interior e parem de latir tanto. Sério, não sei o que acontece com eles, são muito estressados!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

mudanças - parte II

Isso foi numa terça-feira, em maio de 2005. Mais tarde naquele dia consegui falar com minha mãe, que ficou extremamente feliz com a notícia e, inclusive, disse que eu ia mudar de avião, dessa vez (a viagem de ônibus durava em média umas trinta horas e eu já havia feito o trajeto umas quatro vezes).

A semana passou rapidamente, eu arrumei minhas coisas e domingo de manhã já estava no aeroporto com apenas uma mala daquelas que vai abrindo e abrindo e cabe até um cadáver (morto) dentro, de tão grande. Então em Cuiabá eu cheguei. E o dia seguinte seria meu primeiro dia de aula.

fiz no paint

Não é como se agora eu fosse contar todos os meus dias em Cuiabá, mas acho que nunca escrevi sobre minha mudança para lá. E é algo que deixava todos surpresos, afinal, saí de Curitiba pra morar em Cuiabá. Além dos apelidos de gaúcha, pau-rodado (quem vinha do Sul) e dos vários "Bah, guria, tri legal!", coisas que eu nunca falei a não ser ironicamente e guria, que falo até hoje.

Cuiabá foi a cidade mais peculiar que eu morei até hoje. Havia a diferença gritante na temperatura, o sotaque meio anasalado, a recepção calorosa de quem mora lá e, claro, as próprias gírias e costumes regionais. Foi quase um estudo de caso. Mas eu gostei bastante de ter me mudado pra lá, no fim das contas.

Pelo menos a mudança, no começo, foi muito boa e realmente me fez bem. Conheci pessoas extraordinárias e uma personalidade coletiva muito diferente da curitibana. Acho que desencanado é um termo que eu usaria pra definir o pessoal de lá. E a Universidade era bem bonita. Nem tanto os prédios, mas a paisagem no geral era agradável. Do calor eu nunca gostei, exceto quando estava em uma cachoeira gelada na Chapada dos Guimarães. Eu costumava dizer, quando perguntavam, que eu não queria mais me mudar de Mato Grosso e que, se pudesse, moraria lá para sempre!

Mas com o tempo o sentimento de pertencimento àquela cidade foi esvaindo e deixando de existir nos últimos anos. Como se fosse um romance, cujo ápice foi 2008/2009, e que depois foi esfriando e virando rejeição. Eu sentia que a hora de sair de lá havia chegado. Então eu recebi com alegria a notícia da transferência do meu pai para o Sudeste.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

mudanças - parte I

Dizem que mudar é sempre bom. Que mudanças são boas, trazem renovação. Eu não costumo concordar com isso, mais pelo fato de que generalizar é sempre um erro do que eu ter tido alguma experiência ruim com mudanças. Mas com certeza existem mudanças ruins.

Inclusive a primeira vez que me mudei para Cuiabá foi uma experiência ruim. Eu não havia passado no vestibular pela segunda vez. E não é como se eu estivesse tentando um curso difícil como Medicina, era apenas Direito. Eu nunca quis mudar de Curitiba para Cuiabá, na verdade. Só prestei vestibular lá por que era lá que meus pais estavam morando.

Então meus pais falaram pra eu mudar pra lá e prestar vestibular numa faculdade particular. E foi o que eu fiz. Passei na prova, porém meus pais não teriam dinheiro para pagar a mensalidade. Então eu resolvi voltar para Curitiba e fazer cursinho lá. E foi o que eu fiz. Nisso houve uma lacuna de 4 meses, em que eu basicamente cuidava de casa (morava com meu irmão do meio e mais um amigo nosso) e fazia academia. Nada demais. Então, em maio, fui ao cursinho me matricular, novamente.

Na tarde daquele mesmo dia, em casa, o telefone tocou e eu mesma atendi:
"Boa tarde. Por favor, eu gostaria de falar com a senhora Ana Spoladore."
"Sou eu."
"Então, Ana, eu sou aqui da Universidade Federal de Mato Grosso e tou ligando pra te avisar que você foi aprovada no vestibular."
"Ah, você tá brincando! Sério, mesmo?"
"Sim, e eu preciso saber se você vai querer a vaga, caso contrário, iremos chamar o próximo candidato..."
"Não, não, eu quero, sim."

Depois que desliguei o telefone, meu irmão perguntou quem era, expliquei. Ele perguntou, então, se eu ia, ao que eu respondi "Vou, né".

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

diana - parte I

Diana pensava numa forma de falar com ele sem deixar transparecer seus sentimentos. Porque quando se gosta de alguém, pensou ela, o menor movimento pode entregar sua intenção. Como se fosse muito ruim ter seus sentimentos descobertos, como que estivesse nua diante de todos, uma coisa assim, desprotegida. Não entendia muito bem a razão de ser disso, apenas sentia.


Dessa forma, deveria agir normalmente, com a maior naturalidade possível quando fosse chamá-lo para almoçar com ela ou falar sobre qualquer outro assunto. Ela deveria transparecer amizade e amizade, apenas. Afinal, eles nem combinavam, ela já havia pensado nisso tudo, mas não conseguia evitar aquele sentimento. O coração acelerando quando o via, quando se aproximavam, tudo a deixava desconsertada. Não havia cabelo suficiente para colocar atrás das orelhas num movimento de puro nervosismo.


"Você vai ensebar todo seu cabelo se não parar de passar a mão nele o tempo todo."
Era Rogéria, a amiga de Diana.
"Eu com cabelo ensebado ainda me saio melhor que você, Roger."
"Justo. E não me chame de Roger. Eu deveria ter pedido pra mudar meu nome enquanto ainda havia tempo. Mas também, quem iria adivinhar que ter o nome Rogéria daria tanto motivo pra chacota... pra bulem.
"Bullying. E qualquer pai adivinharia isso. Além do seu 1.80m de altura, né, Roger."
"1.78. Mas é verdade. Quem diria que eu teria vocação pra travesti, tanto no nome quanto na altura. Mas pelo menos não estou ensebando meu cabelo por causa de um cara que só me vê como amiga."
"Acho que isso nos torna duas losers, né?"
"Fale por você. Mas quem nunca, não é mesmo? Minha vantagem é que minha altura funciona como um filtro para homens. Só olho para os altos. Já você tem uma margem muito grande de oscilação. Sem contar sua falta de critério."
"Eu sou criteriosa, nem venha!"
"Ô. Lembra daquele que usava sandália com meia?"
"Tou tentando esquecer até hoje. O que eu via nele?"
"Não sei. Ninguém sabe. Nem ele saberia explicar. Mas viu, estou indo pra casa. Vai almoçar lá hoje?"
"Vou. Mas posso falar com ele, rapidinho, antes?"
"Você tem três minutos."

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

ah, o colégio! II

coloca assim: foi Dom Pedro I quem pro-cla-mou...
Nessa história eu tinha 11 anos de idade, estava na quinta série. Era a semana da pátria, a semana do 7 de setembro. Dessa vez o colégio teve a grande ideia de fazer uma gincana competitiva entre as quintas séries com o tema da independência do Brasil. Desconsiderando o fato de a história da independência ser questionável, se D. Pedro I estava em cima de um cavalo ou com dor de barriga quando disse Independência e/ou Morte, essa é uma época em que os professores querem passar a importância do acontecimento para os alunos e tudo o mais.

Sendo assim, era preciso que um dos alunos da sala coordenasse os outros durante a gincana. Nisso, uns 5 alunos se levantaram para concorrer ao cargo de "chefe". Eu fiquei sentada, claro. Dor de cabeça pra quê? Então a professora: "Vai, Ana! Levanta, vai, vai!" Aí eu, com aquela cara de me fazendo de difícil, fiquei em pé. Automaticamente todo mundo sentou, menos uma menina, a Janaína. Então as amigas dela votaram nela e o resto da turma votou em mim.

Confesso que com 11 anos eu era um pouco temperamental e logo vi que coordenar aquilo não seria fácil. Fiquei um bom tempo preparando umas colagens e então outras gurias pegaram e colaram totalmente fora de ordem, o que me deixou extremamente irritada. Lembro-me de ter dado uma bronca nelas, porque não havia tempo e logo as professoras iam passar pelas salas, com aquela cara de paisagem, avaliando nossos trabalhos.

Eu já criticaria toda a gincana, mas teve um fato tão pior que vou ater-me a ele: uma das tarefas era fazer uma música. Isso mesmo. Piazada de 11 anos fazendo uma música sobre a Independência do Brasil. E eu tinha que supervisionar o nosso vexame. Uns meninos apareceram com um rap que falava do Dia do Fico, inclusive. E eu não entendi uma palavra do que eles disseram. Nisso veio outro com a música do bate forte o tambor, eu quero tique tique tique tique tá, a qual foi escolhida. Não ficou bom, mas era o que tinha.

No dia da apresentação, vimos as outras turmas se apresentando. Obviamente teve a turma do rap, em que ninguém entendia o que os meninos falavam, a não ser o refrão, que dizia Independência ou Morte, mas também tinha coreografia, com as meninas vestidas como no filme Mudança de Hábito 2, garotas rebeldes com cara super séria, porque o esquema era sério, muito sério, era um rap sobre a independência, yo!

Outra turma foi só de garotas, que utilizaram a música Garota Nacional, do Skank, cujo refrão ficou assim: "Portugal-gal-gal, Portugal-gal-gal-gal, é o nosso tchau! (2x) Eeeeee-e-e-e-eu quero ter muita sorte! Pra conhecer o rio... o rio da independência ou morte!" 

Mas claro, chegou a vez da nossa apresentação. Lembro-me da Janaína, que estava usando uma jardineira e havia pintado o rosto de verde e amarelo, dizendo ser a mascote. O menino do teclado estava pronto e logo começaram.

O refrão era algo como "Eu quero, eu quero, eu quero, eu quero libertar!" E o menino do teclado selecionou o som de órgão e ficou tocando apenas os acordes, quando um menino de outra turma, que estava perto de mim, observou que aquilo parecia música de funeral. Era a minha equipe, mas não pude segurar a crise de riso depois deste comentário.

E lá estava a Janaína falando com os jurados para pedir desculpas pela apresentação. Segundo ela, foi o que garantiu nossa nota 8. Eu fiz a única coisa que poderia fazer: dar risada. E estou rindo até hoje.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

lady at the bus stop

a good place to meet strangers
Um título desses pode nos remeter, mentalmente, à alguma senhora simpática e delicada, talvez singela, que eu tenha conhecido no ponto de ônibus e que, de alguma forma, me cativou a ponto de escrever um texto sobre ela. Não nesse caso.

Eu já havia dito aqui que não devemos falar com estranhos unless they're hot a menos que eles falem conosco

Com o tempo eu revi essa "regra" e decidi ser mais desencanada em relação a isso, afinal, qual o problema? É só um estranho. Provavelmente não o verá novamente, comentarão algo sobre o clima e ficará por isso mesmo. E enquanto eu escrevia isso aqui, eu percebi que na verdade eu não revisei essa regra droga nenhuma, porque eu não saio por aí falando com estranhos a menos que eles realmente falem comigo. E, quando falo com eles, é porque preciso de alguma informação, mesmo.

Em todo caso, não me importo muito ou sempre que um estranho me aborda na rua. Façam aqui vocês as suas ressalvas (se estou na tpm, se estou com pressa, se estou triste, se tenho TOC, se tenho medo etc.) porque eu não darei conta de abranger todos motivos pelos quais alguém não gosta de ser abordado por desconhecidos na rua.

Mas enfim, essa senhora merece destaque tanto pelo desprendimento dela em falar com estranhos quanto à capacidade de tratar de diversos assuntos desconexos em pouco tempo, além da presunção de intimidade, como segue:

- Ow, psiu! Tenho um neto lindo igual esse menino aqui (indicando o rapaz que estava sentado ao seu lado)! É sim! Meu neto é bonito que nem ele! Vou te apresentar pro meu neto, pra você namorar com ele! Eu tenho três namorado! Um pra de manhã, um pra de tarde e um pra de noite! Hé-hé!
- Eu tava no médico, tenho muita queimação, gastrite, sabe? Você tem queimação, dor no estômago? Eu tenho! Mas consegui 100 comprimido de graça! Olha que bom!
- Mas nossa, como você é linda! Moça, você é muito bonita! Tinha que se candidatar a miss!  Tinha só que ganhar mais altura e perder um pouco peso, que tava ótimo! E aprender 10 línguas! Eu sei falar italiano, inglês, francês, sei falar filha da puta em árabe! É, eu sei! Filha da puta em árabe! Hé-hé!

[demonstrou seu conhecimento nos idiomas...]

- Mas sério, você é muito bonita, tem traços muito bonitos, não tem (perguntando pras pessoas do lado)?

[chega uma mulher com uma criança e senta do lado dela, que abre espaço]

- Você não quis sentar, né, fia? Pode sentar no meu colo! Como se fosse minha filha! Não tem problema! Não qué? Os correios tão em greve! Dia 20 os bancos vão tudo entrar em greve! Ih, a coisa só vai piorar! Com a COPA, então, aí só vai dá problema!

Ela só parou de falar comigo quando entramos no ônibus, e logo foi dizendo ao motorista:


- Sonhei com você! Eu tava dando um monte de beijo em você! Hé-hé!


Depois disso eu parei de escutar. Não é como se meu dia pudesse ficar mais estranho que isso. A não ser por outra mulher que, pouco depois, teve convulsão na minha frente, na rua (e que eu parei pra ajudar, obviamente), e também pela maquiagem medonha de uma atendente de uma loja de cosméticos. Sério, era cabulosa.